Eu disse outrora que só descobrimos o real significado do amor quando perdemos o objeto de nossa idolatria. Fui de novo testemunha de coisa semelhante.
Foi um período difícil. Escrevinharei algumas linhas para oficializar meu retorno aos meus bálsamos literários, mas não prometo grande coisa. Acho que o que eu idealizava de fonte não mais apetece-me com tanta significância quanto antes.
Sempre me vangloriei intimamente por ter personalidade e “identität” muito bem definidas. Sou um profundo conhecedor de mim mesmo e, desta feita, sei enumerar melhor meus defeitos do que as minhas qualidades. Em todo o caso, trato-os da mesma forma que um veterano de guerra trata suas cicatrizes: provas honrosas e visíveis dos males que já vencemos.
Desprezei tudo que excedia esse tema e que fizesse parte da constituição de quem eu sou. Desprezei porque não há na Existência coisa mais exata do que o ser definido por qualidades e defeitos, por consequência o que te diferencia da vasta multidão de bonecos cinza vagando inglórios na brisa da sociedade. Talvez esta seja a ferramenta que permite refletir-se no meio exterior, de forma que se inclua e adapte nos círculos e estabeleça, em si, suas reais e devidas importâncias. Eu valorizo isso, por mais ridículo que possa parecer aos olhos da maioria.
Há de se citar, então, o meu espanto quando tive que pisar em cima de tudo isso pela primeira vez na minha vida. Qual seria tal motivo nefasto? Amor; puro e simples.
O pior dos vícios! Engraçado como somente pude sentir na totalidade o que ele representa quando não mais estava próximo da personificação de tal sentimento. Perdi o foco depois de dez agradáveis meses de estabilidade, fato que resultou em uma nova cicatriz no meu rosto já experiente.
Apaixonado! Apaixonado! Tal status me dá medo, como cálices de vinho embebidos de sangue para o mais desesperado bebedor. Tamanha a realidade do sentimento que pensei que ia me consumir de dentro pra fora como o mais doloroso veneno terminal.
Tentei me matar e falhei deploravelmente. Fui traído, enganado e humilhado. No dia seguinte, reatei meu namoro. Passei por cima de tudo o que sou e de tudo o que acredito para cultivar o que se tornou um vício ao longo do tempo. Existe alguma explicação razoável para isso senão a insanidade?
Recomeçarei a terapia semana que vem. Desejem-me sorte,
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Ser ou não ser - eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz, ou pegar em armas contra o mar de angústias - e, combatendo-o, dar-lhe fim?
Morrer; dormir; Só isso.
E com sono - dizem - extinguir dores do coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita; eis uma consumação ardentemente desejável.
Morrer - dormir - dormir! Talvez sonhar. Aí está o problema! Os sonhos que virão no sono da morte quando tivermos escapado ao tumulto da vida nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do governante e o achincalhe que o homem paciente e dedicado recebe dos inúteis, podendo ele próprio encontrar seu repouso com um simples punhal?
Quem agüentaria fardos gemendo e suando numa vida servil, senão por temer alguma coisa após a morte - o país não descoberto, de onde jamais voltou nenhum viajante - nos confunde a vontade, nos faz preferir e suportar os males que já temos, a fugirmos para outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim a força natural de uma decisão se transforma em fétido
pensamento. E empreitadas de vigor e coragem, refletidas demais, saem de seu caminho, perdem o nome de ação.
(Hamlet, Ato III, cena 1)
Morrer; dormir; Só isso.
E com sono - dizem - extinguir dores do coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita; eis uma consumação ardentemente desejável.
Morrer - dormir - dormir! Talvez sonhar. Aí está o problema! Os sonhos que virão no sono da morte quando tivermos escapado ao tumulto da vida nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do governante e o achincalhe que o homem paciente e dedicado recebe dos inúteis, podendo ele próprio encontrar seu repouso com um simples punhal?
Quem agüentaria fardos gemendo e suando numa vida servil, senão por temer alguma coisa após a morte - o país não descoberto, de onde jamais voltou nenhum viajante - nos confunde a vontade, nos faz preferir e suportar os males que já temos, a fugirmos para outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim a força natural de uma decisão se transforma em fétido
pensamento. E empreitadas de vigor e coragem, refletidas demais, saem de seu caminho, perdem o nome de ação.
(Hamlet, Ato III, cena 1)
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Filho Único
Cazuza
Você me quer?
Você cuida de mim?
Mesmo que eu seja uma pessoa egoísta e ruim?
Você me aceita
E me dá a receita
De como conviver com um monstro mesquinho e careta?
Você me respeita
Não grita comigo
Mesmo que eu tente tudo pra te irritar
Você tem que entender
Que eu sou filho único
Que os filhos únicos são seres infelizes
Eu tento mudar
Eu tento provar que me importo com os outros
Mas é tudo mentira (tudo mentira)
Estou na mais completa solidão
Do ser que é amado e não ama
Me ajude a conhecer a verdade
A respeitar meus irmãos
E a amar quem me ama
Você me quer?
Você cuida de mim?
Mesmo que eu seja uma pessoa egoísta e ruim?
Você me aceita
E me dá a receita
De como conviver com um monstro mesquinho e careta?
Você me respeita
Não grita comigo
Mesmo que eu tente tudo pra te irritar
Você tem que entender
Que eu sou filho único
Que os filhos únicos são seres infelizes
Eu tento mudar
Eu tento provar que me importo com os outros
Mas é tudo mentira (tudo mentira)
Estou na mais completa solidão
Do ser que é amado e não ama
Me ajude a conhecer a verdade
A respeitar meus irmãos
E a amar quem me ama
sábado, 31 de outubro de 2009
Ao meu saudoso amigo
Há de glorificar quem o tempo não viola.
Nada mais era do que uma criança fardada como adulto. Aquela em que a ampulheta configurava-se em só mais um ornamento, pois não há de ter grão que realmente o significasse. De inviolável idade, os quarenta anos nada mais eram do que puramente simbólicos.
Doce o teu prematuro sorriso.
Calvário o teu choro amargurado.
Sorriso ausente; felicidade inerte. A respeitosa farda configurava-se agora no mais pleno fardo. Alguns segundos de descontrole e lá estava ele a se arrepender em emocionante desespero. Os incessantes pedidos de desculpas tão prontamente aceitos não lhe eram suficientes para cessar o pranto, mas lhe eram suficientemente úteis para ludibriar o sono sempre tão escasso. E então, finalmente, ele podia sonhar...
Amiúde, confessava-me o teor de suas orações. Nada mais queria da sua incoerente vida do que partilhar a anestesia da tal da Morte. Jurava-me ainda subir aos céus, sem mais farda ou fardo ou o que quer que seja cujo peso prendesse-o ao chão...
Pois há de existir um Deus para ti, tão querido Roni! Há de existir o teu sonhado paraíso tranqüilo! Há de existir o teu sonhado paraíso sem dor! Há de existir o teu sonhado paraíso bonito!
Prepotente que sou, faço meu este pranto. Entretanto, não me banho na convencional e mórbida tristeza. Alegro-me que tenha, enfim, seguido o teu caminho...
Só saiba que eu nunca antes havia rezado por alguém.
Nada mais era do que uma criança fardada como adulto. Aquela em que a ampulheta configurava-se em só mais um ornamento, pois não há de ter grão que realmente o significasse. De inviolável idade, os quarenta anos nada mais eram do que puramente simbólicos.
Doce o teu prematuro sorriso.
Calvário o teu choro amargurado.
Sorriso ausente; felicidade inerte. A respeitosa farda configurava-se agora no mais pleno fardo. Alguns segundos de descontrole e lá estava ele a se arrepender em emocionante desespero. Os incessantes pedidos de desculpas tão prontamente aceitos não lhe eram suficientes para cessar o pranto, mas lhe eram suficientemente úteis para ludibriar o sono sempre tão escasso. E então, finalmente, ele podia sonhar...
Amiúde, confessava-me o teor de suas orações. Nada mais queria da sua incoerente vida do que partilhar a anestesia da tal da Morte. Jurava-me ainda subir aos céus, sem mais farda ou fardo ou o que quer que seja cujo peso prendesse-o ao chão...
Pois há de existir um Deus para ti, tão querido Roni! Há de existir o teu sonhado paraíso tranqüilo! Há de existir o teu sonhado paraíso sem dor! Há de existir o teu sonhado paraíso bonito!
Prepotente que sou, faço meu este pranto. Entretanto, não me banho na convencional e mórbida tristeza. Alegro-me que tenha, enfim, seguido o teu caminho...
Só saiba que eu nunca antes havia rezado por alguém.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
O rapazote, a moça e o balancinho
A moça de alva beleza só queria que ele a balançasse.
O rapaz era franzino e comum. Nada tinha de tão interessante, salvo talvez a incomum capacidade de conseguir mexer um pouco as orelhas. Descalço e moreno, via como seres angelicais as moças tão brancas e delicadas como aquela que, enfim, o notara.
Era sabida a aversão deste rapazote a balancinhos. Estes o derrubavam, evidenciando ainda mais sua falta de jeito que em nada era charmosa. De regra sua só manter-se seguro, da qual nunca se queixara antes.
A moça agora se tornara naturalmente persuasiva. O sorriso dócil o deslocava ao mesmo tempo em que encantava e, talvez por falta do que fazer, ele resolveu se aproximar. Nem rápido e nem lento demais, cuidando para que ela não batesse asas e voasse na efemeridade de um amor não correspondido e na fugacidade do que há de belo para se olhar. Ela continuou a chamar, conservando o mesmo sorriso de moça-donzela que o rapazote tão tardiamente descobriu.
O cheiro almiscarado fez suas pernas tremerem, mas ela não o percebeu. Deu as costas e se apertou seguramente no balancinho, enquanto o rapazote se esgueirava para trás e empurrava com demasiado cuidado. Soaram as reclamações e ele aumentou a força, sempre teimando em ser cuidadoso o suficiente para que nela não se refletisse a sua falta de jeito.
Não convém associar rapazotes descalços com mocinhas bonitas de cidade grande.
Ela só queria que ele a balançasse.
Logo entardeceu. Ela se despediu com lânguido beijo no rosto moreno incapaz de enrubescer e se esvaiu para nunca mais vê-lo.
E então eram só ele e o velho balancinho de sempre.
O rapaz era franzino e comum. Nada tinha de tão interessante, salvo talvez a incomum capacidade de conseguir mexer um pouco as orelhas. Descalço e moreno, via como seres angelicais as moças tão brancas e delicadas como aquela que, enfim, o notara.
Era sabida a aversão deste rapazote a balancinhos. Estes o derrubavam, evidenciando ainda mais sua falta de jeito que em nada era charmosa. De regra sua só manter-se seguro, da qual nunca se queixara antes.
A moça agora se tornara naturalmente persuasiva. O sorriso dócil o deslocava ao mesmo tempo em que encantava e, talvez por falta do que fazer, ele resolveu se aproximar. Nem rápido e nem lento demais, cuidando para que ela não batesse asas e voasse na efemeridade de um amor não correspondido e na fugacidade do que há de belo para se olhar. Ela continuou a chamar, conservando o mesmo sorriso de moça-donzela que o rapazote tão tardiamente descobriu.
O cheiro almiscarado fez suas pernas tremerem, mas ela não o percebeu. Deu as costas e se apertou seguramente no balancinho, enquanto o rapazote se esgueirava para trás e empurrava com demasiado cuidado. Soaram as reclamações e ele aumentou a força, sempre teimando em ser cuidadoso o suficiente para que nela não se refletisse a sua falta de jeito.
Não convém associar rapazotes descalços com mocinhas bonitas de cidade grande.
Ela só queria que ele a balançasse.
Logo entardeceu. Ela se despediu com lânguido beijo no rosto moreno incapaz de enrubescer e se esvaiu para nunca mais vê-lo.
E então eram só ele e o velho balancinho de sempre.
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